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Fim do mistério: a doença
de Paulo é a neurocisticercose.
A primeira dica é o exame
de imagem, um corte axial de ressonância magnética cerebral na sequência T2, na
qual o líquor aparece hiperintenso (“branco”), o que facilita a visualização de
lesões císticas e também daquelas localizadas no interior dos ventrículos. A
imagem postada é compatível com o estágio nodular calcificado da
neurocisticercose, melhor visto na tomografia de crânio. Entretanto, como a
doença pode apresentar-se em vários estágios em um mesmo paciente, outros
cortes poderiam demonstrar lesões ativas, que pudessem causar mais
sintomatologia que simplesmente crises epilépticas, como aconteceu com Paulo,
nosso paciente fictício.
De maneira geral, o
diagnóstico da neurocisticercose baseia-se no cruzamento de dados
epidemiológicos com exames complementares, o exame clínico e, em última
análise, a demonstração do parasita por biópsia do encéfalo ou da medula
espinhal. Epidemiologicamente, a infestação do sistema nervoso central (SNC)
por cisticercos permanece ainda uma doença endêmica em algumas regiões do país
e tem crescido em áreas onde não era descrita anos atrás, inclusive em alguns
países desenvolvidos, por causa das migrações. Os casos ocorrem em todas as
faixas etárias, aumentando a frequência conforme o aumento da idade. A
urbanização desordenada, vigilância sanitária deficiente, ausência de
saneamento básico e educação sanitária são os principais fatores que
potencializam a transmissão da cisticercose e também da teníase. Apesar do grande
número de casos diagnosticados no ambiente urbano, o paciente típico ainda é aquele
oriundo da zona rural.
Em relação aos exames
complementares, a tomografia computadorizada de crânio é o exame mais difundido
e diagnostica bem as lesões intraparenquimatosas. A avaliação do líquor é outro
exame de grande valor no diagnóstico da neurocisticercose, sendo sugestivo quando
se observa aumento da celularidade, com predomínio de eosinófilos e
positividade das reações imunológicas específicas, como é o caso da reação de
fixação de complemento, as reações de imunofluorescência, hemaglutinação,
imunoenzimáticas (ELISA: enzyme-linked
immunosorbent assay) e blotting
com glicoproteínas purificadas (EITB: enzyme-linked
immunotransfer blot). As alterações tomográficas dependem da fase de
desenvolvimento da larva. A lesão cística, hipodensa, de contornos bem
delimitados e com escólex no seu interior corresponde ao cisticerco vivo ou
forma ativa (veja abaixo as figuras 2A e 2B). Acredita-se que o cisticerco intraparenquimatoso
sobreviva por um período de 3 a 6 anos, após o qual sofre um processo de
degeneração. A presença de lesão hipodensa com reforço em anel ou de lesão
isodensa com reforço homogêneo na fase contrastada é indicativa desta fase de
degeneração do cisticerco (figura 2C).
Na sequência, após um período de aparente normalização, inicia-se no local o
processo de deposição progressiva de sais de cálcio. O intervalo médio entre a
morte do cisticerco e a calcificação radiologicamente perceptível é de 25 meses
(figura 2D).
Os cisticercos em topografia intraventricular ou cisternal nem sempre são
detectados pela tomografia computadorizada, pois a densidade dos cisticercos é
similar à do líquor (figura 2B).
Nesses casos o melhor exame é a ressonância magnética, que também se mostra
mais acurada nos casos da doença acometendo o canal vertebral.
A extensa utilização da
neuroimagem no estudo da neurocisticercose fez surgir uma proposta para a
classificação das lesões associando-se à fase evolutiva da parasitose: ativa ou
viável (forma vesicular), transicional (coloidal e granular/nodular) e inativa
(calcificada), o que ajuda a determinar inclusive a decisão terapêutica.
Abaixo, segue um quadro
incluindo de forma resumida os critérios diagnósticos e os graus de certeza
envolvendo a neurocisticercose:
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A dica 2 atrapalhou bastante os leitores,
mas foi postada de forma proposital. Ela não exclui a possibilidade de
neurocisticercose. A ingestão da carne de porco contaminada com cisticercos causa
a teníase intestinal, e não a neurocisticercose. Esta ocorre quando a pessoa
ingere os ovos da Taenia solium,
geralmente por meio de alimentos contaminados com ovos provenientes do ambiente
ou por auto-infestação. No primeiro caso, os ovos provêm de pessoas que,
portadoras da teníase intestinal, eliminam proglotes grávidos, contendo cerca
de 40.000 ovos; por falta de higiene, os proglotes são expelidos e espalham os
ovos em todo o ambiente em volta (infestação externa). A auto-infestação
interna é incomum, quando material intestinal retorna ao estômago, por
mecanismo de refluxo, situação admitida apenas para crianças. Dessa maneira,
não é necessário que o paciente com neurocisticercose seja portador de teníase
intestinal. Segue abaixo uma ilustração do ciclo evolutivo da Taenia solium, tendo o homem como
hospedeiro definitivo na teníase intestinal e intermediário na
neurocisticercose.
O quadro clínico da
neurocisticercose é muito variado. Formas assintomáticas existem, não sendo
possível estimar a sua incidência; neste caso a neurocisticercose é descoberta
ao acaso aos exames de imagem. A epilepsia é a manifestação clínica mais comum,
geralmente do tipo parcial. Hipertensão intracraniana é outra forma de apresentação,
devida ao edema cerebral inflamatório, formas pseudotumorais, ou hidrocefalia,
ou a associação destes mecanismos. Síndrome meníngea subaguda pode ocorrer. A
dica 3 cita uma gama de sintomas geralmente decorrentes de uma infestação
cerebral maciça por cisticercos: os distúrbios psíquicos. Estes são variados,
como alterações comportamentais e déficit cognitivo progressivo. Podem evoluir
para um quadro demencial propriamente dito, como foi o caso de Paulo. Esses
casos representam uma forma grave da doença, a encefalite cisticercótica, na qual
a tomografia computadorizada revela múltiplas lesões com reforço anelar ou
homogêneo circundadas por intenso edema cerebral difuso. Possivelmente Paulo
precisaria de outros cortes da ressonância magnética para definir essa fase
ativa da doença, mas de qualquer forma, pelo simples corte apresentado, já
podemos observar que a mesma era disseminada.
A dica 4 é bastante útil
porque a neurocisticercose sempre deve ser questionada quando um indivíduo
proveniente de áreas endêmicas apresenta uma crise epiléptica inédita,
principalmente se este indivíduo for adulto. O tratamento da neurocisticercose
pode ser sintomático ou específico, clínico ou cirúrgico. O tratamento
sintomático se faz para as crises epilépticas e a hipertensão intracraniana. O
uso de dexametasona (corticóide potente) está indicado nos casos em que há
evidência de edema cerebral inflamatório, podendo ser ou não associado aos parasiticidas,
como o albendazol e o praziquantel. Paulo foi tratado neurocirurgicamente em
função de hidrocefalia (dica 5), tendo sido implantada uma derivação liquórica para
aliviar o acúmulo do líquor. A hidrocefalia nesses casos pode ser decorrente de
uma lesão obstrutiva por uma vesícula neurocisticercótica, como também por um
distúrbio da circulação liquórica causado pelo aumento da viscosidade do líquor
ou ainda um déficit de absorção provocado por uma meningite cisticercótica.
A última dica faz
referência ao estágio evolutivo final da neurocisticercose, bem caracterizado
pelos nódulos calcificados vistos à tomografia de crânio (figura 2D).
Para concluir, a
neurocisticercose é uma doença grave que pode apresentar taxas de mortalidade
maiores que 25% em alguns estudos. Dessa maneira, as políticas públicas de saúde
e vigilância sanitária devem constituir-se como as primeiras e principais armas
da sociedade para diminuir essa estatística.
Parabéns a todos que
acertaram o diagnóstico de Paulo.
Fontes: Diagnóstico por Imagem, Cérebro, Anne
G. osborn e colaboradores (2ª edição); Neurologia, Jean Cambier e colaboradores (11ª edição); Tratamento das doenças
neurológicas, Sebastião Eurico de
Melo-Miranda (2ª edição); TAKAYANAGUI, Osvaldo M.; LEITE, João
P.. Neurocisticercose. Rev.
Soc. Bras. Med. Trop., Uberaba,
v. 34, n. 3, June 2001.




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